Pipeline robusto e P&D acelerado impulsionam farmacêuticas chinesas
As farmacêuticas chinesas deixaram de ocupar um papel secundário no setor global para se consolidarem como concorrentes diretas, parceiras estratégicas e polos de inovação. Agora, segundo analistas, algumas dessas companhias podem estar prestes a dar um salto ainda maior rumo ao seleto grupo das grandes biofarmacêuticas globais.
Michael Rome, diretor administrativo e chefe da equipe de investimentos em terapêutica da Foresite Capital, avalia que diversas empresas chinesas já apresentam atributos típicos de companhias totalmente integradas e com ambição internacional. Embora não exista uma definição rígida para caracterizar uma “big pharma”, ele destaca que receitas na casa de dezenas de bilhões de dólares e produtos com potencial multibilionário costumam marcar essa transição para um novo patamar competitivo.
Entre os exemplos mais citados está a Jiangsu Hengrui Pharmaceuticals, considerada uma das líderes da nova geração farmacêutica da China.
Fundada há mais de cinco décadas, a Hengrui combina histórico consolidado no mercado doméstico com uma estratégia agressiva de expansão internacional. A empresa já possui diversos medicamentos aprovados na China e vem estruturando joint ventures para viabilizar registros regulatórios em outros mercados.
Em 2024, a Hengrui ultrapassou a AstraZeneca como maior patrocinadora de ensaios clínicos do mundo, impulsionada por um pipeline robusto: cerca de 100 medicamentos experimentais e aproximadamente 400 estudos clínicos em andamento.
Relatório da IDEA Pharma aponta que a companhia está bem posicionada para sustentar o crescimento, apoiada por desempenho financeiro sólido, investimento contínuo em P&D e um portfólio já validado comercialmente.
A estratégia global também inclui acordos relevantes. A Hengrui firmou parcerias com empresas como a Merck & Co. e a GSK. Em um dos maiores contratos recentes, concedeu à GSK direitos de comercialização, fora da China, de um candidato para doença pulmonar obstrutiva crônica e de até 11 outras terapias. O acordo prevê US$ 500 milhões iniciais e pode alcançar até US$ 12 bilhões em valor total ao longo do tempo.
A Hengrui não é um caso isolado. Outras companhias, como a Shenzhen Salubris Pharmaceuticals e o Haisco Pharmaceutical Group, também vêm sendo apontadas como nomes promissores. Embora ainda concentrem a maior parte de sua infraestrutura na China, analistas acreditam que a consolidação como players globais pode ocorrer em breve, especialmente diante da rápida evolução de suas capacidades de P&D.
Algumas empresas já avançaram nesse processo de internacionalização. A BeOne Medicines, anteriormente conhecida como BeiGene, passou de origem chinesa a companhia global com sede na Suíça. Já a Sino Biopharmaceutical vem migrando gradualmente de um foco em genéricos para inovação proprietária.
O avanço das farmacêuticas chinesas tem sido impulsionado por maior acesso a capital, reformas regulatórias e um ecossistema de inovação em rápida expansão. Tradicionalmente forte em oncologia, a China agora amplia seu escopo para áreas como doenças metabólicas, imunologia e neurologia, segundo análises da McKinsey & Company.
Um dos principais diferenciais apontados é a velocidade de desenvolvimento. De acordo com a McKinsey, o ciclo entre descoberta e submissão de pedido de Investigational New Drug (IND) pode ser de 50% a 70% mais rápido do que em outras regiões, graças a fluxos de trabalho paralelos, uma densa rede de CROs e uma cultura operacional altamente intensiva.
A adesão da China ao Conselho Internacional para Harmonização de Requisitos Técnicos para Produtos Farmacêuticos de Uso Humano (ICH) também elevou a credibilidade científica do país, com maior presença de estudos publicados em periódicos de alto impacto.
Apesar do impulso, o caminho rumo ao status de big pharma global não é isento de obstáculos. O ambiente geopolítico, especialmente as tensões entre China e Estados Unidos, representa um fator de risco. Em dezembro, os EUA aprovaram a Lei de Biossegurança, que busca restringir vínculos de empresas americanas com determinadas companhias chinesas no âmbito da cadeia de suprimentos.
Ainda assim, analistas acreditam que os vetores estruturais, forte investimento em P&D, capital disponível e pipelines inovadores, devem continuar sustentando a ascensão dessas empresas.
Se confirmada, essa trajetória poderá redefinir o equilíbrio de forças da indústria farmacêutica global, transformando antigas seguidoras em protagonistas de alcance internacional.
Fonte: PharmaVoice